Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

Zélia

Um dia desses um filhote de gato bateu nossa casa. Adotamos e o chamamos de Zé. Uma homenagem ao um outro que um dia nos deixou. O gato é preto, com mechas brancas e marrons. Peraí, disse um colega do trabalho, então é gata. Geneticamente não existem gatos de três cores. É? Perguntei. É, me disse. Em casa contei a novidade. Combinamos em chamar Zé de Zélia. Mas o nome não pegou, dias e dias se passam e ainda chamamos a coitada de Zé. Será que a Zélia se tornará lésbica por isso? Se for é bom, né? Assim não emprenha.

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me ignorem, escrevi isso quando Zé era um filhote. Agora está com o bucho na boca.

Sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

Indiferença Olímpica

Com a nua coragem do cosmonauta
Doei-me às fantasias da metafísica

Canoa sem remos me levou até pedras
– Esquinas pontiagudas –
Choquei-me ao som de doces flautas

Cânones em elogios a mortos abraçaram o resto de mim
Sem neurose me enterraram no túmulo de outra pessoa

Não trancaram a porta na saída
Fugi

Fingi não ser comigo os versículos bíblicos
Fingi não ser comigo os mantras orientais
Sou Buda, sou Elias na carruagem de fogo
Sou o filho bastardo de Jor-El

No universo obscuro de minha fé
Acreditei que eu próprio me salvaria
Morto reencarnaria em mim mesmo
Moto-perpétuo
Seria de mim redentor
Seria meu próprio diabo

Acordei, então, e acordado, abracei a certeira indiferença olímpica da ciência.

Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

O Sarau - mais perto do fim

Cento e cinqüenta mil caracteres cem espaço (estou enlouquecendo com esses números), essa é nova meta para O SARAU. Hoje finalmente passei dos cem mil. Também já havia ultrapassado o número de Pirilampos Cegos que é noventa e seis mil. Fiz o esboço de todos os capítulos que restam. Acho que termino daqui para outubro. E até o fim do ano, revisarei. Segue um parágrafo que acabei de escrever, faz parte do capítulo XLII. Pode-se ler à vontade, não revela nada.

Na juventude, o dono do jornal herdou um grande casarão tombado pelo patrimônio histórico nacional. Não podia demolir o prédio. Restaurar, muito caro. Esperou dez anos. Somado a sua negligente cumplicidade, o tempo, com as próprias artimanhas determinou o casarão ao entulho. Pode assim o dono do jornal então fazer outra construção. Sem o ônus da lei.

Sábado, 16 de Agosto de 2008

Mar de Dentro

- É contra a correnteza que devemos navegar?

- Sim!

- Com que barco? Com que remos?

- Nadamos. Remamos com as mãos.

- Mas, é por demais agitado.

- Palmo a palmo iremos conquistar

Assim, saltamos no rio e lutamos contra a correnteza. Subimos cascatas e cachoeiras. E quando chegamos à nascente, o supremo do rio, vimos que era daquele lugar ínfimo que vazava todo o mal. Então nunca mais tive medo de mergulhar em águas desconhecidas. E viajei por rios, lagoas, lagos e mares. Conquistei oceanos. Nos continentes deixei lares. Tudo isso apenas com o peito aberto e as mãos a desbravar.

Regurgitando Dorival Caymmi

Quando a luz do sol chega devagar, abre o sorriso do dia que se aproxima. Será que você vem? Será que você vai ficar comigo? Pra sempre? O dia é tão assim! O dia é tão fugaz! Como a nuvem vai indo, o amor sempre se vai. Isso é mentira de livros que passam entre as mãos. O amar é a linha no horizonte, tanto fica como se vai.

Se vai a procurar o novo para o velho alimentar, o coração fica. Ao velho cais logo volta, como a ave de volta ao ninho.

Fica como a mãe vendo o filho indo à guerra. Dói tanto o peito que só encerra pra quem volta. Quem levantou se aquieta, quando a ponta do barco se aponta.

Como é calmo o mar.
Como é agitado o mar.

A linha do horizonte é sempre a mesma. Seja dia, seja noite.

E enquanto o mundo faz planos e se acaba, a velha mãe tricota uma blusa, maltratando os dedos pra acalmar o coração. O pescador, que foi na madrugada, procura na linha do horizonte o cais até encontrar.

Como é calmo o mar.
Como é agitado o mar.

A linha do horizonte é sempre a mesma, seja dia, seja noite. Seja no lado de lá, seja no lado de cá.

Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

Aranha

veio
ressu-
reta à
veia

imer-
(feito)
-gente

reta
qual'arqui-
teto

do chão
prendeu
a preia
à teia

catre
do végeto
fogo que
nem Frida
ateia

Inseti-
(inserto)
-cídio

sombria
candeia:

veneno
que leva
o lume
e o som-

breia


Março de 2008

Sábado, 9 de Agosto de 2008

Traumas Holandeses

(PARA SER LIDO AO SOM DA SEGUNDA SONATA DE VIVALDI, VERSÃO DJ MALBORO)

Cinara prometeu voltar e não voltou. Partiu. Puta. Jorge esperou. Era só um intercambio. Porra! O que ela viu naquele europeu? O que Jorge vai fazer com o fogão? Com a máquina de lavar louças? Eram só três meses. Passagem de volta comprada. Ela perdeu? Perdeu. Dois anos se passaram. Estado vegetativo. Traumas holandeses. Bigornas nas costas de Jorge. Cinara nem as caras. Ela volta? Jorge, ela não volta. Está grávida. Grávida do segundo. O primeiro não é teu. Certamente. Deve haver um jeito. Outra mulher. Jorge assim não pode ficar. Não pode não. O cara só trabalha. Não vê a família. Mal sai com os amigos. O tempo já se foi. Se não cuidar disso nunca mais passa. Já vi outros casos. Nada bom. Nada bom. Precaução. Outros ares. Ele sai. Não se interessa por ninguém. As moças caem em cima. E nada. Jorge quer ser padre? Foi o que ele disse semana passada. Mulher era coisa do passado. Acabou-se o tesão. Brincadeira! Não, sério. Sério?! Sério. Coitado do Jorge e seus traumas holandeses. Que Cinara pegue um câncer. Seja atropelada. Fique em coma. Justo. Jorge é homem bom. Deve haver um jeito. É difícil dizer. Talvez haja uma saída. Trazer um monte de mulher. Contrata. Alô. Sim? As seis. Preço de cinco. Loiras. Cinara era loira. Todas com a cara de Cinara. Jorge vai gostar. Jorge não vai gostar. Pode até fazer merda. Pois. Deixa ele bêbado, topa? Melhor, dopa. É, dopa. Amarra. Qualquer coisa. Será o fim de Cinara. Já é de noite. Que venham as putas. Não, tirem todas daqui! Calma, Jorge, se diverte. O remédio demora? Demora para fazer efeito. Bebe mais vinho. Assim. As putas vão tirando a roupa. Com calma. Strip-tease. Quero ser padre. Padre. Bispo. O Papa. Senta aqui. Não cai, Jorge. Agora ele está no grau. Balancem os quadris. Aumente o funk. Jorge, gosta? Cinara?! Jorge está aturdido. Acelerem o rebolado!! Façam o trabalho. Foram pagas. Cinara, você? Sim, sou Cinara. Sim, sou Cinara. Sim, sou Cinara. Cinara. Cinara. Cinara.

Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008

Ontem foi o aniversário de nossa capital que prefiro não mencionar o nome (é capital da Paraíba que merecia nome melhor). Ano passado fiz uma poesia. Daquelas para ser lido bêbado em cima da mesa, chamando a atenção de todos, com toda a arrogância que ela merece. Esse é dos longos. Tenho duas tendências ao fazer poemas. Uma é fazer poemas enxutos, com muitos jogos de palavras. A outra tendência é em versos quase prosa, longos, tipo esse dái. Se eu fosse mais metido criaria dois heterônimos. Mas como não quento nem comigo...



Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Betomenezes


I

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Junto aos luais de luas brutas, bustos velhos e seios apalpados

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Junto à areia da praia amarelada e batizada pelos cães

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Iluminado por luzes esverdeadas institucionais

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Junto do samba, do rock de Raul, de Legião

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Junto dos trios dos carnavais estacionados

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Junto aos magros corredores e hipertensos sofredores

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Quero lá meu epitáfio


II

Naquele sorvedouro de gente, quero que todos lá me encontrem
Mesmo sem querer, mesmo sem saber que eu estou lá

Quero o final da Epitácio
Sobre isso não permito objeção
Que nem depositem meu corpo lá
Que joguem meu corpo num rio qualquer
Que cremem, que joguem aos cães

Mas quero meu epitáfio no final da Epitácio
Em mármore, em bronze, em letras garrafais

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Para que o turista desavisado com suas polaróides me fotografe
Quero meu epitáfio no final da Epitácio

E quando chegar o mar, em marés mais e mais altas
Estará lá meu epitáfio

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Será lido por mergulhadores sob o mar


III

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Quero lá meu epitáfio
Não importa quem escreva
Que eu mesmo escreva meu epitáfio
Ou contrate um mais fácil escritor

Quero meu final epitáfio
Exijo apenas isso
Não imploro, não suplico - exijo

E não me façam bustos, estátuas, teatros
Não denominem meu nome a ruas
A becos, a guetos burgueses
Tampouco quero nome de bairros
Apenas exijo: quero meu epitáfio no final da Epitácio!

E tenho dito.

MinhaMinha Capitá 50 anos mais nova

Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

o
rolo
opressor
me (per)segue

meu
filho
ficando
mais
eu

o
rolo
opressor
me (per)segue

meu
brilho
ficando
mais
breu

Domingo, 3 de Agosto de 2008

Livro de Poesia?

Tou organizando um livro de poesias, apesar de todos acharem que não dou pra isso. Mas insisto. Vou postar daqui pra frente algumas poesias aqui. Comentários são bem vindos.

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

Hai-kai

o saldo da noite
ramalhete de tulipas
vazias de chope


Esse haikai fiz ano passado. Ele vai aparecer no livro o Gosto Amargo de Qualquer Coisa. Pense numa coisa difícil de fazer. É mesmo coisa de budista. Fiz até uma oficina com Alice Ruiz, mas não consigo me prender à métrica, funções dos versos, essas coisas. Se eu vou fazer haikai, tenho que fazer direito, né?

Quarta-feira, 30 de Julho de 2008

O homem que matou Wilson Braga

O homem que matou Wilson Braga não estava certo do que ia fazer, até fazer. Foi numa esquina da Duque de Caxias, subida do viaduto, a trinta passos do Café São Braz. Ele surgiu do nada, por trás de um camelô, ponto cego. De nada serviram os dois seguranças. Nenhum deles quis se meter a herói e jogar-se na frente do patrão. Ainda assim sobrou bala para um deles. O outro se esquivou, pulou para depois do meio fio e se enroscou em uma mulher que passava alheia a tudo. Ela então inaugurou a gritaria que é bem comum depois dos tiros. Fez-se então o corre-corre. Uns contra, outros em direção ao acontecido.

Jorge Alexandre - esse era o nome do homem que matou Wilson Leite Braga - não tinha feito plano de fuga. Até hoje de manhã, nem revólver tinha. Levou na feira de Oitizeiro a bicicleta e a TV de quatorze polegadas. Saiu de lá com um trinta e oito de cabo enferrujado e vinte quatro balas.

“Deus, pra que tanta bala?”, “A gente vai dar uns tiros no fim de semana” disse Jorge para a mulher. “Vê lá o que vai fazer. E esconde esse ferro dos meninos”.

A obsessiva idéia de matar Wilson Braga era antiga. Por décadas quarou à luz de seus traumas. Quando deitava, ela vinha à tona das profundezas do inconsciente em seus pensamentos. Contudo, era desejo passageiro que só se realizava nos sonhos. Quando acordava já havia esquecido do que pensou. Mas naquele dia, a idéia não o deixou dormir. Traspassou a madrugada e quando o galo cantou, viu que era inevitável dar progresso ao seu desejo. Escovou os dentes com a morte certa de Wilson na cabeça. Saiu cedo em jejum, enquanto os outros dormiam. Que os filhos o perdoassem por ficarem sem televisão.

O dia passou logo. No corre-corre que se sucede aos tiros, lá ia Jorge fugindo pela Duque de Caxias. Cinco guardas municipais, dois policias militares e uma multidão incalculável atrás dele. Alguém atirou. A bala tirou fino de sua orelha e cravou numa caminhoneta estacionada na zona azul. Ele revidou. Foi instintivo. Eram as duas balas que restavam no tambor. Uma pegou no primeiro tenente que o perseguia, a outra voou até onde podia com os passarinhos. O tenente caiu já morto. Foi atropelado pela multidão que já enchia a rua, de um meio fio ao outro. Jorge enfiou a mão na caixa de balas no bolso e tentou recarregar o tambor, mas a arma caiu. Caíram também os cartuchos não deflagrados, se esparramaram pelo calçamento. Alguns do que estavam na frente da marcha escorregaram neles, caíram, represaram a turba, deram um tempo de ouro para Jorge se afastar um pouco mais, mas só mais um pouco.

Foi fulminante a bala que matou Wilson Braga. A sirene da ambulância que chamaram foi logo apagada. Não houve tempo para extrema unção.

– O homem do povo morreu. Morreu o homem do povo – era o agouro dos que ficaram velando ao redor do corpo.

Os que corriam queriam vingá-lo, não enxergaram revólver, não enxergaram bala. Já estavam próximo de encurralar o homem que matou Wilson Braga. A Rua Duque de Caxias estava perto do fim e outra multidão já o esperava no Largo de São Francisco.

Wilson havia assinado há muito tempo sua sentença. Quem se propõe a fazer política deve saber que a morte rondará pelas esquinas. Cada estranho pode ser um desafeto que nem mesmo se conhece. Ele morreu por causa de um riacho, um riacho de nada, que só corria água quatro meses por ano, de São José a São Pedro.

Braga construiu tanto açude através de suas emendas ao orçamento da União no tempo do ARENA. Ele não sabia que um açude pequeno de nada em uma fazenda perto de um vilarejo depois de Telha, redondezas de Picuí foi feito para lavar os cavalos. A intenção de Braga foi agradar um correligionário, evitando saber os detalhes escusos. O riacho represado antes do vilarejo não mais alimentava as cabras que Jorge, menino, cuidava. “E agora, meu pai? Meu pai, e agora?”, chorou em março quando perceberam que o rio não vinha para encher as reservas escassas. Foram reclamar ao correligionário de Wilson Braga. Este fez correrem aos tiros, Jorge e seu pai. “E agora, meu pai? Meu pai, e agora?” Sem mais riacho pras cabras, rumaram, deixaram o Curimataú, cruzaram o Brejo, chegaram à capital. Jorge casou bem novo; o pai, de tanto pó de cimento, morreu. Enquanto isso, no Palácio, Wilson Braga do povo se tornava governador.

Jorge era bom corredor, virou batedor de carteiras. Nas paradas das conduções na Lagoa, tirava o pão e o leite da família. Veio o plano Real e ele financeiramente não se estabilizou. Foi preso por tráfico e do Róger, no cárcere, assistiu a duas copas. Só saiu de lá em dois mil e três, na condição de ser homem de bem. Ele não era homem de bem, homem de bem era seu pai que, por capricho da política, Wilson Leite o rio de sua vida represou. “E agora, meu pai? Meu pai, e agora?”, o sono não vinha quando deitava para esquecer. Fez promessa, virou crente, mas o sono não vinha quando deitava para esquecer.

Um dia alguém lhe falou que homem só se torna homem quando mata outro homem. E ele ainda não.

Foram quatro balas que saíram do tambor quando Jorge mirou e apertou o gatilho. O velho trinta e oito de cabo enferrujado, que noutros punhos outros tantos já havia matado, deu-se o capricho de não acertar nas três primeiras tentativas. Mas no último disparo, veio a sua redenção. A bala entrou entre os dois mamilos, quebrou costela, alojou-se em suas costas, rompendo no caminho as pontes de safena. Lá se fora o problema, Jorge agora dormiria em paz, agora era homem.

Mas não tinha tempo para sono. Ele corria. Corria. E veio mais bala de um policial federal. Mal sabia ele que das balas, desde novo, Jorge aprendera a fugir. Eram balas fortuitas. Jorge naquele dia não morreria de tiro. Destino maior o esperava no Largo de São Francisco, julgava. Na câmera lenta da fuga, sua vida a jato passava. Vingou o seu pai, agora poderia morrer em paz.

Mas não queria morrer, por isso corria. Então por que para o Largo continuava indo? Isso Jorge não sabia, só ia.

“Vai sair, assim, sem beijo? Pelo menos se despede dos meninos”, a mulher havia sentido, quando ele tomou banho, se arrumou todo para sair e vestiu a roupa do tempo de solteiro, que para casa não mais ia voltar. Porém, ela não insistiu para que ficasse. Só chorou quando ele estava bem longe. Jorge, dos filhos, não se despediu; da mulher, não roubou o último beijo.

A Duque de Caxias estava acabando, mas nunca acabava. Falando assim parece que ela era uma rua grande, mas não era uma rua tão grande assim. Só que parecia tudo mais extenso, tudo parecia mais lento. Dessa maneira, Jorge podia pensar, calcular, sentir, perceber, só não se arrepender do que tinha feito. Wilson ficou para trás, não mais residia em seus pensamentos.

Era tudo tão lento que Jorge podia olhar para trás, observar cada um dos seus perseguidores. Ao centrar em seus rostos, tentar entender o porquê de quererem capturá-lo. O que de bom Wilson fez a eles? Uma casa popular? Um trabalho fantasma? Uma farda escolar? Uma ordem de retrato? Um par de dentaduras ou de sapatos? Mataram o homem do povo! O homem do povo mataram!

Era tudo tão lento que Jorge podia olhar para frente, lá para o Largo de São Francisco, onde a outra multidão lhe esperava. E de grande surpresa foi tomado quando quis fazer o mesmo que já fizera com os que lhe perseguiam: observá-los. Os rostos dos que esperavam por ele eram todos iguais. Todos os que faziam a grande multidão no Largo era ele: uma multidão de Jorges. Deus do céu, aquilo estava acontecendo mesmo? Não sabia. O certo é que agora, mais do que antes, sabia que lá estaria seguro. Só bastava chegar, mas a Duque de Caxias que estava acabando, nunca acabava.

E agora, meu pai? Meu pai, e agora?

Tudo parecia lento, cada vez mais e mais lento, até que... Assim ficaram – Jorge, os que perseguiam e os que esperavam no Largo – congelados. Fotografia viva, afresco a ser contemplado.

Jorge eterno, assim, para sempre foi chamado. Para sempre imortal, como as estátuas, no final da Duque de Caxias.