O homem que matou Wilson Braga não estava certo do que ia fazer, até fazer. Foi numa esquina da Duque de Caxias, subida do viaduto, a trinta passos do Café São Braz. Ele surgiu do nada, por trás de um camelô, ponto cego. De nada serviram os dois seguranças. Nenhum deles quis se meter a herói e jogar-se na frente do patrão. Ainda assim sobrou bala para um deles. O outro se esquivou, pulou para depois do meio fio e se enroscou em uma mulher que passava alheia a tudo. Ela então inaugurou a gritaria que é bem comum depois dos tiros. Fez-se então o corre-corre. Uns contra, outros em direção ao acontecido.
Jorge Alexandre - esse era o nome do homem que matou Wilson Leite Braga - não tinha feito plano de fuga. Até hoje de manhã, nem revólver tinha. Levou na feira de Oitizeiro a bicicleta e a TV de quatorze polegadas. Saiu de lá com um trinta e oito de cabo enferrujado e vinte quatro balas.
“Deus, pra que tanta bala?”, “A gente vai dar uns tiros no fim de semana” disse Jorge para a mulher. “Vê lá o que vai fazer. E esconde esse ferro dos meninos”.
A obsessiva idéia de matar Wilson Braga era antiga. Por décadas quarou à luz de seus traumas. Quando deitava, ela vinha à tona das profundezas do inconsciente em seus pensamentos. Contudo, era desejo passageiro que só se realizava nos sonhos. Quando acordava já havia esquecido do que pensou. Mas naquele dia, a idéia não o deixou dormir. Traspassou a madrugada e quando o galo cantou, viu que era inevitável dar progresso ao seu desejo. Escovou os dentes com a morte certa de Wilson na cabeça. Saiu cedo em jejum, enquanto os outros dormiam. Que os filhos o perdoassem por ficarem sem televisão.
O dia passou logo. No corre-corre que se sucede aos tiros, lá ia Jorge fugindo pela Duque de Caxias. Cinco guardas municipais, dois policias militares e uma multidão incalculável atrás dele. Alguém atirou. A bala tirou fino de sua orelha e cravou numa caminhoneta estacionada na zona azul. Ele revidou. Foi instintivo. Eram as duas balas que restavam no tambor. Uma pegou no primeiro tenente que o perseguia, a outra voou até onde podia com os passarinhos. O tenente caiu já morto. Foi atropelado pela multidão que já enchia a rua, de um meio fio ao outro. Jorge enfiou a mão na caixa de balas no bolso e tentou recarregar o tambor, mas a arma caiu. Caíram também os cartuchos não deflagrados, se esparramaram pelo calçamento. Alguns do que estavam na frente da marcha escorregaram neles, caíram, represaram a turba, deram um tempo de ouro para Jorge se afastar um pouco mais, mas só mais um pouco.
Foi fulminante a bala que matou Wilson Braga. A sirene da ambulância que chamaram foi logo apagada. Não houve tempo para extrema unção.
– O homem do povo morreu. Morreu o homem do povo – era o agouro dos que ficaram velando ao redor do corpo.
Os que corriam queriam vingá-lo, não enxergaram revólver, não enxergaram bala. Já estavam próximo de encurralar o homem que matou Wilson Braga. A Rua Duque de Caxias estava perto do fim e outra multidão já o esperava no Largo de São Francisco.
Wilson havia assinado há muito tempo sua sentença. Quem se propõe a fazer política deve saber que a morte rondará pelas esquinas. Cada estranho pode ser um desafeto que nem mesmo se conhece. Ele morreu por causa de um riacho, um riacho de nada, que só corria água quatro meses por ano, de São José a São Pedro.
Braga construiu tanto açude através de suas emendas ao orçamento da União no tempo do ARENA. Ele não sabia que um açude pequeno de nada em uma fazenda perto de um vilarejo depois de Telha, redondezas de Picuí foi feito para lavar os cavalos. A intenção de Braga foi agradar um correligionário, evitando saber os detalhes escusos. O riacho represado antes do vilarejo não mais alimentava as cabras que Jorge, menino, cuidava. “E agora, meu pai? Meu pai, e agora?”, chorou em março quando perceberam que o rio não vinha para encher as reservas escassas. Foram reclamar ao correligionário de Wilson Braga. Este fez correrem aos tiros, Jorge e seu pai. “E agora, meu pai? Meu pai, e agora?” Sem mais riacho pras cabras, rumaram, deixaram o Curimataú, cruzaram o Brejo, chegaram à capital. Jorge casou bem novo; o pai, de tanto pó de cimento, morreu. Enquanto isso, no Palácio, Wilson Braga do povo se tornava governador.
Jorge era bom corredor, virou batedor de carteiras. Nas paradas das conduções na Lagoa, tirava o pão e o leite da família. Veio o plano Real e ele financeiramente não se estabilizou. Foi preso por tráfico e do Róger, no cárcere, assistiu a duas copas. Só saiu de lá em dois mil e três, na condição de ser homem de bem. Ele não era homem de bem, homem de bem era seu pai que, por capricho da política, Wilson Leite o rio de sua vida represou. “E agora, meu pai? Meu pai, e agora?”, o sono não vinha quando deitava para esquecer. Fez promessa, virou crente, mas o sono não vinha quando deitava para esquecer.
Um dia alguém lhe falou que homem só se torna homem quando mata outro homem. E ele ainda não.
Foram quatro balas que saíram do tambor quando Jorge mirou e apertou o gatilho. O velho trinta e oito de cabo enferrujado, que noutros punhos outros tantos já havia matado, deu-se o capricho de não acertar nas três primeiras tentativas. Mas no último disparo, veio a sua redenção. A bala entrou entre os dois mamilos, quebrou costela, alojou-se em suas costas, rompendo no caminho as pontes de safena. Lá se fora o problema, Jorge agora dormiria em paz, agora era homem.
Mas não tinha tempo para sono. Ele corria. Corria. E veio mais bala de um policial federal. Mal sabia ele que das balas, desde novo, Jorge aprendera a fugir. Eram balas fortuitas. Jorge naquele dia não morreria de tiro. Destino maior o esperava no Largo de São Francisco, julgava. Na câmera lenta da fuga, sua vida a jato passava. Vingou o seu pai, agora poderia morrer em paz.
Mas não queria morrer, por isso corria. Então por que para o Largo continuava indo? Isso Jorge não sabia, só ia.
“Vai sair, assim, sem beijo? Pelo menos se despede dos meninos”, a mulher havia sentido, quando ele tomou banho, se arrumou todo para sair e vestiu a roupa do tempo de solteiro, que para casa não mais ia voltar. Porém, ela não insistiu para que ficasse. Só chorou quando ele estava bem longe. Jorge, dos filhos, não se despediu; da mulher, não roubou o último beijo.
A Duque de Caxias estava acabando, mas nunca acabava. Falando assim parece que ela era uma rua grande, mas não era uma rua tão grande assim. Só que parecia tudo mais extenso, tudo parecia mais lento. Dessa maneira, Jorge podia pensar, calcular, sentir, perceber, só não se arrepender do que tinha feito. Wilson ficou para trás, não mais residia em seus pensamentos.
Era tudo tão lento que Jorge podia olhar para trás, observar cada um dos seus perseguidores. Ao centrar em seus rostos, tentar entender o porquê de quererem capturá-lo. O que de bom Wilson fez a eles? Uma casa popular? Um trabalho fantasma? Uma farda escolar? Uma ordem de retrato? Um par de dentaduras ou de sapatos? Mataram o homem do povo! O homem do povo mataram!
Era tudo tão lento que Jorge podia olhar para frente, lá para o Largo de São Francisco, onde a outra multidão lhe esperava. E de grande surpresa foi tomado quando quis fazer o mesmo que já fizera com os que lhe perseguiam: observá-los. Os rostos dos que esperavam por ele eram todos iguais. Todos os que faziam a grande multidão no Largo era ele: uma multidão de Jorges. Deus do céu, aquilo estava acontecendo mesmo? Não sabia. O certo é que agora, mais do que antes, sabia que lá estaria seguro. Só bastava chegar, mas a Duque de Caxias que estava acabando, nunca acabava.
E agora, meu pai? Meu pai, e agora?
Tudo parecia lento, cada vez mais e mais lento, até que... Assim ficaram – Jorge, os que perseguiam e os que esperavam no Largo – congelados. Fotografia viva, afresco a ser contemplado.
Jorge eterno, assim, para sempre foi chamado. Para sempre imortal, como as estátuas, no final da Duque de Caxias.